Monday, September 26, 2005

Em Órbita do 9.11 - Terra da Abundância

Realizado por Wim Wenders

EUA, 2004

Paul é um veterano de guerra que sofre de paranóia. Após o 11 de Setembro, convence-se que a América está em guerra e começa a patrulhar as ruas de Los Angeles.Lana regressa aos EUA numa missão católica de apoio aos sem-abrigo...e para encontrar Paul, o seu tio.

Apesar das diferenças entre os dois, o assassinato de um sem-abrigo paquistanês, que testemunham involuntariamente, vai aproximá-los...

Monday, September 19, 2005

Persona Non Grata

Realizado por Oliver Stone

EUA, França, Espanha, 2003, Doc.

Nos dezoitos meses que se seguiram ao fracasso da tentativa de estabelecer a paz permanente, em Camp David, no ano 2000… israelitas e palestinianos mergulharam numa espiral de violência aparentemente impossível de deter.. Ambos milhares sofreram milhares de baixas.

Este é um testemunho cru, isto é, não há grandes considerações sobre o que antecedeu a actual situação, nem os cenários possíveis, Stone centra-se no dia-a-dia de cidades como Ramalah e a posição oficial de cada uma das partes intervenientes. O documentário tem como protagonistas antigos primeiros-ministros israelitas, Shimon Peres, Ehud Barak e Benjamin Netanayu, os diplomatas europeus, Miguel Maratinas e Christian Jereut, Hasan Yosef, porta-voz do Hamas, membros da Brigada de Mártires Al Aqsa, o historiador Meir Pail e o ministro de segunaça pública de Israel, Gideon Ezra. A figura de Yasser Arafat é presença constante ao longo do documentário, pois Stone mostra-nos as dificuldades em estabelecer contacto com ele e a única vez que se encontra com ele, é para figurar ao lado de outros artistas, pintores e escritores, como o português José Saramago.

Este documento fica marcado por ter sido realizado aquando do massacre de Pasadena, onde morrem 28 israelitas em função de um atentado suicida, nos dias seguintes assiste-se à resposta israelita com a destruição do quartel-general de Arafat.

“Persona Non Grata” é acima de tudo um conversa frente a frente com as pessoas que tiveram ou têm capacidade para solucionar o problema ou não…

Monday, September 12, 2005

Fahrenheit 9/11 ou Mooretainment

Realizado por Michael Moore
EUA, 2004, Doc.

Michael Moore já não é apenas “aquele tipo gordo que fez um filme assim e assado sobre uma escola”. Moore é já o realizador de intervenção, o oscarizado, o vencedor de Cannes. O eleito de Tarantino. O anti-Bush. E Moore não está de regresso para procurar provas ou verdades, mas simplesmente para opinar sobre a América (uma vez mais), os seus líderes e o poder global. Goste-se ou não. Concorde-se ou não. Isto não ‘entertainment’ nem é Documentário. Nem é também Entertainmentary. Chamemos-lhe talvez, e mais ajustadamente: Mooretainment.



Polémico vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2004, Fahrenheit 9/11 é um documentário - no qual Michael Moore analisa a actuação da administração de George W. Bush depois dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro - "mockumentary" (filme de ficção, muitas vezes cómico e de paródia, apresentado como um documentário) ou pura propaganda, consoante a opinião.

Wednesday, September 07, 2005

O teatro do bem e do mal

Na luta do Bem contra o Mal, é sempre o povo que apanha as favas. Os terroristas mataram trabalhadores de sessenta países em Nova Iorque e Washington, em nome do Bem contra o Mal. E em nome do Bem contra o Mal, o Presidente George Bush jurou vingança: “Vamos eliminar o Mal deste mundo”, anunciou.

Eliminar o Mal? O que seria do Bem sem o Mal? Não são só os fanáticos religiosos que precisam de inimigos para justificar a sua existência. Os bons e os maus, os maus e os bons: os actores trocam de máscaras, os heróis tornam-se monstros e os monstros heróis, segundo as exigências daqueles que escrevem o drama.

Não há nada de novo nisto. O cientista alemão Werner Von Braun foi mau quando inventou os foguetes V-2 que Hitler lançou sobre Londres, mas passou a ser um bom no dia em que começou a dirigir o Império do Mal. Nos anos da Guerra Fria, John Steinbeck escreveu: “Pode ser que toda a gente precise de russos. Aposto que até na Rússia eles precisam de russos. Talvez lhes chamem lá americanos”. Depois os russos tornaram-se os bons. Hoje, Vladimir Putine diz também:”O Mal deve ser punido”.

Saddam Hussein era bom, assim como as armas químicas que utilizava contra os iranianos e os curdos. Depois, passou a ser mau. Passou a chamar-se Satã Hussein quando os Estados Unidos, que acabavam de invadir o Panamá, invadiram o Iraque porque o Iraque tinha invadido o Kowait. Bush pai encarregou-se desta guerra contra o Mal. Com o espírito humanitário e pleno de compaixão que caracteriza a sua família, matou mais de cem mil iraquianos, na sua maioria civis.

Satã Hussein continua no seu posto, mas este inimigo número um perdeu o lugar e já só é número dois. A praga do mundo chama-se agora Osama Bin Laden. A CIA ensinou-lhe tudo o que ele sabe em matéria de terrorismo: Bin Laden, amado e armado pelo governo dos Estados Unidos, era um dos principais guerreiros da liberdade contra o comunismo no Afeganistão.

Bush pai ocupava a vice-presidência quando o Presidente Reagan declarou que estes heróis eram “o equivalente moral dos pais fundadores da América”. Hollywood estava de acordo com a Casa Branca. Foi nessa época que se filmou o Rambo 3: os afegãos muçulmanos eram os bons. Hoje são os piores dos maus, no tempo de Bush filho, treze anos mais tarde.

Henry Kissinger foi um dos primeiros a reagir face à recente tragédia. “Tão culpados quanto os terroristas são aqueles que lhes deram apoio, financiamento e inspiração”, foi a sua sentença, retomada pelo Presidente Bush poucas horas mais tarde. Se assim é, devia-se começar por bombardear Kissinger. Ele será culpado de muitos mais crimes do que os cometidos por Bin Laden e por todos os terroristas que existem no mundo. E em muitos mais países: agindo por conta de vários governos americanos, levou “apoio, financiamento e inspiração” ao terrorismo de Estado na Indonésia, no Cambodja, no Chipre, nas Filipinas, na África do Sul, no Irão, no Bangladesh, e nos países sul-americanos que sofreram a guerra suja do Plano Condor.

A 11 de Setembro de 1973, vinte e oito anos antes das chamas recentes, ardia o palácio presidencial no Chile. Kissinger tinha antecipado o epitáfio de Salvador Allende e da democracia chilena, comentando os resultados das eleições:”Nós não podemos aceitar que um país se torne marxista por causa da irresponsabilidade do seu povo”.

O desprezo pela vontade do povo é uma das muitas coincidências entre o terrorismo de Estado e o terrorismo privado. Por exemplo, a ETA, que mata em nome da independência do País Basco, diz através de um dos seus porta-vozes:”Os direitos não têm nada a ver com maiorias e minorias”.

Há muitos pontos comuns entre terrorismo artesanal e o terrorismo de alto nível tecnológico, entre o dos fundamentalistas religiosos e os fundamentalistas do mercado, o dos desesperados e o dos poderosos, o dos loucos isolados e o dos profissionais de uniforme. Todos partilham o mesmo desprezo pela vida humana: os assassinos dos cinco mil cidadãos esmagados sob os escombros das Torres Gémeas e os assassinos dos vinte mil guatemaltecos, na maioria indígenas, que foram exterminados sem que jamais a televisão ou os jornais do mundo lhes tenham prestado a mínima atenção. Esses, os guatemaltecos, não foram sacrificados por nenhum fanático muçulmano, mas pelos militares terroristas que receberam “apoio, financiamento e inspiração” dos governos dos Estados Unidos.

Todos os amantes da morte coincidem também na sua obsessão em reduzir a termos militares as contradições sociais, culturais e nacionais. Em nome do Bem, da Verdade única, todos resolvem tudo matando primeiro e levantando as questões depois. Deste modo, acabam por favorecer o inimigo que combatem.

Foram as atrocidades do Sendero Luminoso que prepararam o terreno do Presidente Fujimori, que, com um considerável apoio popular, implantou um regime de terrror e vendeu o Peru por tuta-e-meia. Foram as atrocidades dos Estados Unidos no Médio Oriente que prepararam o terreno da guerra santa do terrorismo de Alá.

Embora agora o líder da civilização exorte a uma nova cruzada, Alá está inocente dos crimes que se cometem em seu nome… afinal de contas, Deus não ordenou o holocausto nazi contra os fiéis de Jeová e não foi Jeová quem ditou o massacre de Sabra e Chatila, nem quem mandou expulsar os palestinianos da sua terra.

Uma tragédia de equívocos: já não se sabe quem é quem. O fumo das explosões faz parte de uma cortina de fumo bem mais espessa ainda, que nos impede de ver. De vingança em vingança, os terrorismos obrigam-nos a caminhar titubeando. Olho uma fotografia recente: numa parede de Nova Iorque alguém escreveu: “O olho por olho torna o mundo cego”. A violência gera violência e também a dor, o medo, o ódio e a loucura.

Em Porto Alegre, no início do ano, o argelino Ahmed Bem Bella avisava:”este sistema que já pôs as vacas loucas está a pôr as pessoas loucas”. E os loucos, loucos de ódio, agem da mesma maneira que o poder que os gerou. Luca, de três anos, comentava estes dias:”O mundo já não sabe onde fica a sua casa”. Estava a ver um mapa-múndi. Mas podia estar a ver o telejornal.

GALEANO, Eduardo,”O teatro do Bem e do Mal”, O Império em guerra, Porto, Campo das Letras, 2002.

11 Perspectivas de um só drama

Tal como o nome sugere, não se trata de um filme, mas antes um conjunto de onze pequenas obras cinematográficas - de outros tantos autores – apresentadas sequencialmente e orquestradas sob a batuta do maestro do projecto, o reputado cineasta francês Claude Lelouch.

Partindo do atentado contra o World Trade Center, a obra não se restringe à inspiração dos trágicos eventos do 11 de Setembro de 2001. Tem o especial condão de ser, que se saiba, o primeiro olhar cinematográfico a que os acontecimentos daquele dia deram origem. A primeira constatação, inevitável, é a heterogeneidade de estilos evidenciada na arte de filmar.

A liberdade na concepção das curtas-metragens, desde logo apresentado pela produção como um objectivo primordial, acaba por se traduzir naturalmente nos trabalhos filmados pelos onze cineastas.

À partida, não se esperaria que um realizador do Burkina-Faso ou do Irão dispusesse dos mesmos expedientes (sobretudo ao nível da produção) dos seus colegas europeus da França ou Inglaterra e essa diferença de cadências produtivas acaba mesmo por se revelar um dos pontos de maior interesse nesta obra de conjunto.

Por outro lado, uma outra evidência salta à vista. Apesar do rol de realizadores preencher os vários cantos do mundo (Europa Ocidental e Oriental, América do Norte e Central, Norte de Africa e Austral, Extremo Oriente e Sudeste Asiático), não deixa de ser notório a falta de um representante da América do Sul (o México acaba por ser o único consignatário latino americano, com um cinema cada vez mais próximo do vizinho do norte que do universo cinematográfico reconhecido a sul das Caraíbas).

De resto, dos países envolvidos no projecto constam: Irão, França, Israel, India, Egipto, México, EUA, Inglaterra, Burkina-Faso, Bósnia-Herzegovina e Japão. Podemos mesmo afirmar, que 11 Perspectivas apresenta-se assim como um autêntico festival cinematográfico e multicultural inserido numa só obra. 11 perspectivas de autor (entre eles alguns nomes bem emblemáticos como Chahine, Lelouch, Loach ou Imamura) de um só drama.

alberto guerreiro | milton dias

11'09"01 – 11 Perspectivas

Realizado por Youssef Chahine, Amos Gitai, Shohei Imamura, Claude Lelouch, Ken Loach, Mira Nair, Idrissa Ouedraogo, Sean Penn, Samira Makhmalbaf, Danis Tanovic, Alejandro González Iñárritu.

França / Reino Unido, 2002

11 realizadores de 11 países filmam 11 curtas de 11 minutos e 9 segundos sobre o 11 de Setembro. 11 olhares diferentes de um pouco de todo o mundo.